O Mito da Lapa – Madame Satã

Postado por blog Postado em Jan - 17 - 2012

O filme “Madame Satã” resgata aspectos sociais do que era ser negro, homossexual e pobre numa sociedade racista e preconceituosa num bairro boêmio como a Lapa do Rio de Janeiro, na década de 1930.

Sim. Este texto começa tão pontual e enérgico como ao próprio filme.

O roteiro e direção de Karim Aïnouz foram eficazes desde a escolha em retratar a vida de José Francisco dos Santos até a escolha do ator em interpretá-lo, Lázaro Ramos. Na trama, identificamos o racismo, o preconceito, a ambiguidade de personalidade, sexo, drogas, sonhos, desejos e o retrato do homem esbanjando seu lado irracional, comparado a um animal.

A dualidade de personalidade é vista em João – homem negro, homossexual, que apresenta claramente seu lado feminino marcado pela doçura, leveza, idealismo, imaginação, sonhos, e o lado masculino, pontuado pela força, agressividade, “macheza”. Isso fica claro na passagem em que o personagem afirma no bar Danúbio Azul, durante uma discussão: “Sou bicha porque eu quero e não deixo de ser homem por isso”.

O lado fantástico expresso no personagem transparece na medida em que ele canta e interpreta personagens idolatrados através do espelho de seu quartinho, localizado no subúrbio. Ele pensa em mudar de vida, ele pensa em ser amado e idolatrado pelo público, ele quer mais do que viver como mais um “bicha” da Lapa. Mas não deixa, sob hipótese alguma, sua integridade de lado, ele luta capoeira como um mestre e jamais leva desaforo para casa, se é homem para cuidar de sua casa e família, é tão homem para manter sua dignidade.

João mora com a meretriz Laurita e sua filha e com o Tabu – um bicha sonhador. Mas é João quem dita as regras, que faz papel de matriarca e patriarca, sempre se dividindo em personalidades gentis e rudes.

Um aspecto que permanece em evidência no filme, do começo ao fim, é o sexo. O linguajar usado sempre quando o assunto é sexo é vulgar, as cenas são pesadas mostrando exatamente a ferocidade daquele ato, quase animal.

João Francisco dos Santos tornou-se mito na história da Lapa por se apresentar como transformista nos bares e cabarés e nos carnavais como Madame Satã – personagem do filme homônimo, de 1932, dirigido por Cecil B. deMille.

Madame Satã foi indicado para 35 prêmios, e desses, ganhou 21. Lázaro Ramos ganhou o “Troféu APCA” 2003 (Associação Paulista de Críticos de Arte), “Grande Prêmio BR do Cinema Brasileiro” 2003, “Mostra Internacional de Cinema de São Paulo” 2002 – Prêmio Especial do Júri – todos como melhor ator.

Por Jessica Gonçalves
Ilustração Rodrigo Kenan

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Categoria: CINEMA, home